A República Da Corrupção.

A República falhou?

Da rejeição da monarquia a corrupção da república


Quando o Brasil proclamou a República, em 1889, o discurso era claro: romper com privilégios, aproximar o Estado do cidadão e substituir a lógica patrimonialista por instituições modernas, responsáveis e fiscalizáveis. Mais de um século depois, a prática parece apontar para o oposto.

O que emerge do noticiário político e econômico é a consolidação de uma elite política, jurídica e econômica cada vez mais blindada, distante da população e pouco suscetível a consequências reais por seus atos. Propostas como a chamada PEC da Blindagem, a ampliação do foro privilegiado e críticas recorrentes à autoproteção institucional do Supremo Tribunal Federal, frequentemente associadas ao ministro Gilmar Mendes, alimentam a percepção de que o sistema passou a funcionar para se proteger, não para prestar contas.

Foto Reprodução: Estadão



Este texto parte de uma provocação legítima — e incômoda: a democracia brasileira está funcionando ou tornou-se apenas um ritual eleitoral que legitima uma oligarquia institucionalizada?

Não se trata de defender a volta da monarquia, mas de reconhecer que a República prometida não é a República praticada.
Um padrão institucional que se repete

Os grandes escândalos nacionais, quando observados em sequência, revelam um roteiro conhecido:

denúncias graves vêm à tona;
investigações se arrastam;
decisões são anuladas ou prescrevem;
punições são raras ou simbólicas;
o prejuízo final recai sobre o contribuinte, o trabalhador e o pequeno investidor.

Enquanto isso, o sistema segue intacto, ajustando regras, interpretações legais e estruturas de poder para reduzir riscos aos seus próprios membros.


Dez escândalos que expõem a falência prática do sistema republicano

1. Caso PC Farias e o impeachment de Collor (1992)

O primeiro grande escândalo da Nova República. Esquemas de corrupção comandados pelo tesoureiro de campanha Paulo César Farias levaram ao impeachment do então presidente Fernando Collor. Apesar da queda histórica, o desfecho judicial frustrou expectativas de punição efetiva e inaugurou a sensação de que o sistema pune politicamente, mas protege juridicamente.

2. Anões do Orçamento (1993)

Deputados manipulavam emendas parlamentares para desviar recursos públicos. O próprio Congresso conduziu a investigação. O resultado: cassações pontuais e nenhuma reforma estrutural, reforçando a cultura da autoproteção legislativa.

3. Mensalão (2005)

Esquema de compra de apoio parlamentar envolvendo figuras centrais do governo federal. Foi um marco por gerar condenações no STF, mas também evidenciou que a governabilidade foi sustentada por corrupção organizada, normalizando práticas ilícitas no centro do poder.

4. Operação Satiagraha (2008)

Investigou crimes financeiros envolvendo banqueiros e grandes empresários. As anulações processuais e o foco em erros formais reforçaram a percepção de que o rigor da lei diminui à medida que o poder econômico aumenta.

5. Petrolão / Operação Lava Jato (2014)

Desvios bilionários na Petrobras envolvendo partidos, estatais e empreiteiras. O maior escândalo de corrupção da história brasileira revelou a simbiose entre Estado e grandes grupos privados. O desmonte posterior da operação deixou uma herança de descrédito institucional e sensação de impunidade.

6. JBS e a captura do Estado (2017)


Executivos da JBS confessaram o pagamento sistemático de propinas a políticos de diferentes partidos. O caso escancarou o capitalismo de compadrio, no qual empresas crescem não pela eficiência, mas pela proximidade com o poder.

7. Caso Queiroz e as rachadinhas (2018–2020)


Investigações sobre desvio de salários de assessores parlamentares mostraram que práticas ilegais podem se tornar rotina administrativa, atravessando ideologias e discursos morais.

8. Orçamento Secreto (2020–2022)


Bilhões de reais distribuídos sem transparência, com forte concentração de poder no Congresso. Um dos exemplos mais claros de blindagem institucionalizada, esvaziando o controle social e o princípio republicano da publicidade dos atos públicos.

9. Americanas e a fraude contábil bilionária (2023)


Mais de R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis revelaram falhas graves de governança, auditoria e fiscalização. Embora privada, a empresa mostrou como o mercado também opera sob lógica de blindagem, com impactos diretos na economia real.

10. Banco Master e o colapso da confiança financeira (2025)


Suspeitas de fraudes, intervenção do Banco Central e relações com figuras públicas como o tão poderoso Alexandre de Moares e sua esposa Viviane Barci de Moraes, colocaram em xeque a eficácia da república brasileira. O caso reforça a pergunta central: quem fiscaliza de fato os fiscalizadores?

Foto: Canal "O Piauiense"


Democracia representativa ou elite autossustentável?


A repetição desses episódios indica que o problema não é pontual, mas estrutural. Quando instituições se tornam autorreferentes, quando o poder deixa de temer o eleitor e quando a lei perde previsibilidade, a democracia se fragiliza.

O Brasil mantém eleições regulares e questionavelmente democráticas, mas convive com uma elite política e institucional que opera acima das consequências práticas. Nesse cenário, a República deixa de ser instrumento de participação popular e passa a funcionar como fachada legal de um sistema fechado.

A pergunta que permanece


Diante desse histórico, a provocação final é inevitável:


A crise brasileira é uma crise da democracia ou da República incentivada por seu povo?

Sem romper as blindagens, restaurar a responsabilização real e reduzir privilégios, qualquer modelo político estará condenado a repetir o mesmo ciclo. A República, como está, pode até sobreviver formalmente — mas sua legitimidade social segue em erosão contínua.

A parcela de culpa que raramente admitimos

Há, porém, um ponto que costuma ficar fora do debate — e ele é decisivo. A sociedade brasileira também é corresponsável pelo estado atual da República.

Ao longo dos anos, a política foi transformada em torcida organizada. Candidatos passaram a ser tratados como clubes de futebol; escândalos são relativizados conforme o lado envolvido; e decisões judiciais são comemoradas não por respeito à lei, mas porque atingem o adversário ideológico.

Foto Reprodução: Ohoje.com



Nesse processo, parte da população passou a aceitar — ou até aplaudir — o desrespeito à Constituição, desde que isso resulte na derrota política de quem pensa diferente. O problema é que precedentes autoritários não escolhem lado: hoje atingem o inimigo, amanhã atingem qualquer cidadão.

Enquanto o brasileiro comum se divide, se radicaliza e briga entre si, a classe política e institucional permanece notavelmente unida quando o assunto é autoproteção: salários, privilégios, foro, emendas, blindagens e acordos de bastidores.

O resultado é conhecido. O povo, fragmentado, perde força. O sistema, coeso, avança. E a conta — financeira, social e moral — recai sempre sobre quem não tem foro, cargo ou influência.

Se a República brasileira parece falida, isso não se deve apenas à corrupção no topo, mas também à renúncia silenciosa da cidadania crítica na base. Sem maturidade democrática, sem compromisso com regras válidas para todos e sem rejeição clara ao vale-tudo político, qualquer regime se deteriora.

No fim, a pergunta deixa de ser apenas institucional e se torna coletiva:


queremos justiça ou apenas a vitória do nosso lado?

Enquanto a resposta for a segunda, a República continuará ruindo — não apesar do povo, mas com a sua conivência involuntária.

Comentários