A China Dos Influenciadores.

"Na China Não Existe Fome" - Elias Jabbour.


O "Milagre" Chinês 

Acompanho muitos canais no YouTube, Instagram, até mesmo a mídia tradicional, que de uma hora para outra passou a fazer merchandising pro, China. Elias Jabbour economista e professor universitário brasileiro, amplamente reconhecido por suas pesquisas e análises sobre o modelo de desenvolvimento da China e o socialismo contemporâneo, em uma entrevista ao Flow Podcast, diz categoricamente que não existe pobreza na China.


 

Outro canal que repentinamente passou a figurar o feed provavelmente de muitos brasileiros e o canal do Felipe Durante. Em suas redes sociais ele enaltece com muita frequência a China, ele enaltece tanto, que às vezes assistindo seus vídeos me sinto como se estivesse em algum filme da Disney, é tudo às mil maravilhas.

Outra figura importante é o José Kobori, que de uma hora para outra passou a fazer grandes elogios a China, — esse que era um investidor faminto da Faria Lima, sendo preso na "Operação Lava Jato". 

Sinceramente, não tenho nada contra, eles defenderem ou fazer merchandising Pro-China, principalmente se esse for o "ganha-pão", deles. Cada um sabe onde seu calo aperta. Agora, um grande economista, geógrafo e professor universitário chegar em plena mídia de grande alcance, como é o caso do Flow, e afirmar que 1.4 bilhão de gente não passa fome ou que não existe pobreza?

De repente me surge um outro influenciador digital e todo dia faz vídeo pró-China como se lá fosse o melhor lugar do mundo. Nos vídeos ele geralmente ataca os americanos e o sistema capitalista, e sempre enaltece o sistema chinês. Na real, vamos parar para pensar: não estou aqui dizendo quem é o melhor ou o pior, o brasileiro polarizado é que hoje realiza esse tipo de discussão na internet sobre quem é melhor, a China ou os americanos, na verdade, esse tipo de gente não escolhe quem é o melhor ou pior, e sim, escolhe qual imperialista irá governar-lo.


Meu ponto de vista aqui é o seguinte: os americanos, um país riquíssimo, enfrentam dificuldades tanto de pobreza como de violência, isso numa população com mais de 340 milhões de habitantes. E sim, sabemos que muito disso está relacionado à má distribuição de renda. Agora vêm uns, caras na internet, os tais influenciadores, economistas ou jornalistas, e ficam fazendo propaganda pró-China, um país com mais de 1.4 bilhão de gente, como se esse país fosse o melhor do mundo, tipo zero problemas. Sinceramente, é forçar a barra demais.

Acredito sim, que a China é um país de cultura maravilhosa, que a nossa medição de democracia ocidental não se aplica aos chineses, mas fica difícil de acreditar num país tão populoso, não tem mendigo, não tem fome, são só as luzes e o brilho de Pequim, como essas, pessoas estão agora pintando a China.


Pior de tudo não é isso: é o próprio brasileiro, que não tem nenhum senso crítico, aceita tudo fácil e depois fica na internet brigando como se China e os Estados Unidos fossem a "direita versus a esquerda" no Brasil. Isso é de uma sandice extrema. Será que esse povo não acorda nunca? Um povo que vive verdadeiramente deitados em berço esplêndido?


Armadilha Estatística: O que significa "erradicar a pobreza"?


Em 2021, o governo chinês anunciou o fim da extrema pobreza no país. O que os influenciadores não te contam é como essa régua foi medida! A China estipulou a sua linha de extrema pobreza em aproximadamente US$ 2,30 por dia.

O problema é que o próprio Banco Mundial possui réguas diferentes dependendo do nível de riqueza do país. Para nações de renda média-alta (onde a China se enquadra), o Banco Mundial recomenda uma linha de US$ 6,85 por dia. Se aplicarmos esse critério internacional e realista, descobre-se que entre 13% e 17% da população chinesa (algo entre 180 e 240 milhões de pessoas) ainda vivem abaixo da linha da pobreza e em severa vulnerabilidade econômica.


Se você acha que isso é "invenção do Ocidente", o próprio coração do governo chinês já desmentiu a utopia da internet. Em 2020, o então primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, declarou oficialmente que 600 milhões de chineses(cerca de 40% da população) viviam com uma renda mensal de apenas 1.000 yuans (cerca de US$ 140 por mês, ou menos de 5 dólares por dia). Ele mesmo admitiu que esse valor mal dava para pagar o aluguel em uma cidade média. Como alguém diz na TV que não há dificuldades em um país onde 40% da população vive com 140 dólares por mês? Obviamente, alguns tentaram desmentir essas informações dizendo que os dados foram publicados de forma errônea, que seja, pode ser um número menor ou maior, tanto faz, o objetivo do post é "1.4 bilhões de pessoas", e na China não existe pobreza ou mendigos? Não foi isso que Elias Jabbour, afirmou?

Além disso, a propaganda ignora a "pobreza urbana invisível". Através do sistema Hukou (o registro de residência chinês), milhões de camponeses que migram para as grandes cidades trabalhando na construção ou na indústria não têm direito a hospitais, escolas ou auxílios estatais nas áreas urbanas. Se perdem o emprego, caem na miséria sem aparecer nas estatísticas oficiais.


O Paralelo com o Brasil e o Bolsa Família

Para o brasileiro entender perfeitamente o tamanho da manipulação, podemos parametrizar exatamente a mesma situação com a nossa realidade. No Brasil, governos historicamente celebram que programas como Bolsa Família "tiraram milhões de pessoas da extrema pobreza". Mas vamos olhar para os critérios burocráticos: o governo brasileiro define a extrema pobreza por quem ganha até R$ 105,00 por mês por pessoa, e a pobreza por quem ganha até R$ 218,00. 

Se o Bolsa Família transfere uma renda e faz a renda por pessoa de uma família subir para R$ 220,00 mensais, no papel e no gráfico do político essa família "saiu da pobreza". Mas eu pergunto a você: alguém deixa de ser pobre no Brasil real vivendo com R$ 220,00 por mês? É óbvio que não. Deixo bem claro, que isso não é uma crítica ao (bolsa família).

Tanto na China quanto no Brasil, o que houve foi o combate à miséria biológica extrema (garantir que a pessoa não morra de fome hoje), o que é louvável. Mas isso está anos-luz de significar o "fim da pobreza".


A pobreza é multidimensional. Uma pessoa que sai da linha de corte da fome, mas continua sem saneamento básico, sem saúde de qualidade, sem transporte digno, sem segurança e dependente de auxílio estatal para não voltar a passar fome, continua sendo pobre. Se usarmos a régua do Banco Mundial para o Brasil (US$ 6,85 por dia, ou cerca de R$ 1.000 mensais por pessoa), quase 30% dos brasileiros ainda estão na pobreza.


Conclusão

É preciso parar de tratar a geopolítica mundial como se fosse Fla-Flu ou militância de DCE de faculdade. Nem os EUA são o paraíso da liberdade sem falhas (sofrem com desigualdade brutal, crises de moradia e violência), e muito menos a China é o éden socialista sem problemas onde 1.4 bilhão de pessoas vivem sorrindo e sem dificuldades econômicas.

Quando influenciadores e acadêmicos vendem uma China perfeita na internet, eles não estão informando: estão fazendo relações-públicas e propaganda ideológica para um modelo que, na prática, pode esconder suas mazelas atrás de linhas de corte estatísticas convenientes, e nisso sabemos que o governo chinês sabe fazer muito bem.

O Brasil assim como a China que são países com dimensões territoriais grandiosas, mas com número populacional completamente diferente, sendo o nosso país 6 vezes menos populoso que chineses. 

Infelizmente sofremos com desigualdades, fome, e a pobreza, como poderíamos simplesmente ignorar o fato de um lugar tão populoso como a China ter erradicado por completo a pobreza e a fome? Isso não poderia ser considerado um grande feito do mundo moderno, que poderíamos expandir para lugares como a África e até mesmo o Brasil? No entanto, o sistema político chinês, não é tão aberto como imaginamos, e o que nos resta é, assistir e nos vislumbrarmos como os grandes influenciadores e a mídia tratam a grandiosa China que por dedicação conseguiu tornar a vida dos chineses a melhor do globo terrestre. Até os alienígenas sentem inveja da China nesse momento.

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