Por Que Precisamos de um Inimigo para Tudo?
A Arte de Ter a Quem Culpar: Por Que Precisamos de um Inimigo para Tudo?
Há uma dinâmica que atravessa a política, a religião e a vida cotidiana: a necessidade de explicar um problema atribuindo-o a um adversário.
Neste texto, chamarei esse mecanismo de “culpa compartilhada”. Não no sentido de que duas pessoas ou grupos sejam igualmente culpados por alguma coisa, mas como uma forma de construção de narrativas: para que determinada narrativa faça sentido, muitas vezes precisamos estabelecer uma posição contrária que funcione como referência, contraste, oposição ou totalitarismo.
É dessa oposição que surgem muitas disputas. O problema é que, quando passamos a depender dela para explicar a realidade, deixamos de procurar as verdadeiras causas dos acontecimentos. Sem essa dinâmica de culpa compartilhada, talvez as pessoas fossem obrigadas a compreender melhor as forças e os mecanismos que exercem influência sobre suas decisões morais, espirituais e políticas. Seriam levadas a buscar respostas e soluções mais complexas, em vez de atribuir seus problemas a adversários que, em determinadas situações, acabam necessitando uns dos outros para manter suas próprias narrativas ativas.
O Teatro da Política e a Construção do Culpado Ideal
É visível que o cenário político brasileiro vive uma forte polarização entre grupos identificados com diferentes correntes ideológicas de esquerda e direita. Sempre que um político situado em um desses campos entra em cena e lança algum discurso ou proposta capaz de explorar essa divisão, surge uma discussão ferrenha entre apoiadores e opositores. A intensidade é tamanha que, se colocássemos os dois lados em um campo de batalha, provavelmente saberíamos de antemão como seria o confronto.E o mais triste nessa disputa é que, quando observamos quem está brigando, muitas vezes encontramos pessoas comuns, inclusive das camadas menos favorecidas da sociedade, disputando entre si por inimigos que não criaram, mas que ajudam a alimentar.
Olhando para o outro lado dessa equação: os próprios políticos, é possível observar um modus operandi recorrente na política: um lado contra o outro. Se um político permanece durante anos no poder e não apresenta resultados concretos, a culpa é raramente atribuída às suas próprias decisões. Surge então um responsável externo: a oposição, o Congresso, o Judiciário, a imprensa, o mercado, os empresários ou qualquer outro grupo que possa ocupar o lugar do culpado. O problema é que encontrar um culpado não significa necessariamente encontrar a causa e muito menos a solução.
A Alternância da Culpa
Qual seria uma das formas mais eficientes de evitar o desgaste político? Trocar o bastão de mãos. Quando um grupo deixa o governo, seus integrantes podem permanecer nos bastidores, mas não necessariamente desaparecem dos holofotes. Agora, passam a explorar os erros do adversário que assumiu o poder. A culpa que antes pertencia a um lado passa para o outro. Assim, novas narrativas são construídas para favorecer determinados grupos políticos ideológicos: branco contra negro, rico contra pobre, esquerda contra direita, comunistas contra capitalistas e tantos outros conflitos que podem ser utilizados para alimentar a divisão. Não é necessário que todos esses conflitos sejam inventados, entretanto, é importante haver alternância de poder para que a culpa não seja direcionada a somente um grupo político.Muitos deles possuem problemas e diferenças reais. A questão é outra: quando a existência do adversário passa a ser necessária para sustentar uma determinada narrativa é nesse momento que o inimigo deixa de ser apenas um adversário e passa a cumprir uma função.
Enquanto os grupos discutem quem é o verdadeiro culpado, problemas concretos podem permanecer em segundo plano sem solução.
Enquanto os grupos discutem quem é o verdadeiro culpado, problemas concretos podem permanecer em segundo plano sem solução.
E Se Não Houvesse Mais Ninguém Para Culpar?
Se um político precisa de um inimigo para justificar seus próprios fracassos, surge uma pergunta interessante: o que aconteceria se nenhum adversário pudesse ser responsabilizado?Imagine uma sociedade na qual um determinado lado político específico recebesse tempo suficiente para governar sem poder atribuir seus fracassos aos seus opositores. Quem seria o culpado? Talvez essa seja uma das maiores dificuldades enfrentadas pela sociedade brasileira, compreender que lado político não é um benefício e sim, uma responsabilidade. O ponto central que quero despertar no leitor é que, se observarmos a política de maneira crítica, perceberemos que a culpa compartilhada também nasce de uma limitação do nosso próprio olhar.
Quando aceitamos rapidamente a explicação de que determinado grupo é responsável por todos os problemas, passamos fazer perguntas mais importantes. Afinal, se um partido permanece por um longo período no poder, qual seria a desculpa para continuar atribuindo seus fracassos? É justamente nesse espaço que podemos desconstruir as narrativas capazes de criar novos culpados e deslocar a atenção daquilo que realmente importa, coisas como: saúde, educação e justiça social.
Quando o Inimigo se Torna Necessário
Existe uma questão ainda mais interessante por trás dessa dinâmica. Se um grupo constrói parte de sua identidade em oposição a outro, o adversário passa a cumprir uma função dentro dessa identidade. “Somos nós contra eles.” Mas, se “eles” deixam de existir, contra quem estaremos lutando?Isso não significa que os dois lados sejam iguais, nem que seus problemas sejam imaginários. Significa apenas que determinados grupos podem acabar dependendo da existência de um adversário para reafirmar quem são, aquilo que defendem e aquilo que rejeitam.
A partir daí surge um paradoxo:
A precisa de B para justificar sua oposição.B precisa de A para justificar sua própria oposição.
O inimigo que precisa ser derrotado também pode se tornar o inimigo que mantém determinada identidade viva. E talvez seja justamente por isso que algumas disputas política nunca desapareçam completamente.
Os Horizontes da Culpa Compartilhada Além da Política
A lógica da oposição, entretanto, não está restrita à política. Podemos encontrar mecanismos semelhantes no campo religioso.O Brasil é um país marcado por forte presença religiosa, e certamente muitos já se depararam com discursos estruturados a partir de oposições como bem e mal, céu e inferno, cristãos e ímpios. Não estamos falando aqui sobre a existência teológica ou filosófica do bem e do mal. A questão é outra: como os seres humanos utilizam essas categorias para organizar acontecimentos, construir identidades e estabelecer disputas no mundo real.
Quando uma pessoa afirma representar o bem, automaticamente estabelece uma diferença em relação àquilo que considera mau, e o mau pode ser relativo, assim como o bem. Se uma pessoa mata uma aranha venenosa, o representante do bem pode observar isso com um ato mau, no entanto, a aranha estava prestes a picar alguém.
Quando um grupo afirma defender a verdade, estabelece uma diferença em relação àqueles que considera estar no erro — um grupo religioso pode se considerar paladino da verdade por ir à igreja, mas não possuem o direito de afirmar que aqueles que não frequentam estariam errados. Essa oposição pode ser legítima. O problema começa quando ela se transforma na principal ferramenta utilizada para construção de narrativas autoritaristas.
Quando a Oposição Cria a Narrativa
Pensemos novamente no bem e no mal, mas não como conceitos teológicos. Imagine apenas como as pessoas interpretam acontecimentos. Se algo positivo acontece a alguém considerado “bom”, podemos interpretar o acontecimento como uma recompensa, uma bênção ou uma confirmação de que aquela pessoa está no caminho certo. Se algo negativo acontece a alguém considerado “mau”, podemos interpretar o acontecimento como consequência de seus próprios atos. E quando a realidade não se encaixa nessa narrativa?Imagine dois criminosos levando uma vida que, segundo os padrões morais da sociedade, está completamente fora da realidade. Em determinado momento, ambos se envolvem em uma situação de grande perigo. Um consegue escapar da morte; o outro não. O que acontece depois? O que sobrevive pode ser lembrado como alguém que recebeu uma bênção divina, como se houvesse um propósito especial reservado para sua vida. O outro, que morreu, pode ser interpretado de maneira completamente diferente. Entretanto, os dois estavam levando uma vida semelhante.
A sobrevivência de um e a morte do outro não necessariamente provam que um, era melhor ou pior. Pode ser simplesmente consequências de circunstâncias, decisões, acaso ou das condições em que estavam inseridos. Mas nós buscamos significado. Precisamos organizar o acontecimento dentro de uma narrativa. E é justamente nesse momento que as categorias de oposição aparecem: abençoado e condenado, justo e injusto, bem e mal.
A questão não é saber se essas interpretações são verdadeiras ou falsas do ponto de vista religioso. A questão é perceber como a necessidade humana de encontrar significado pode transformar acontecimentos comuns em narrativas políticos e religiosas, formando uma legião de gente fanática que só ver o mundo sob uma realidade.
O Bode Expiatório: Quando a Culpa Está Sempre em Outro Lugar
"Pense em um sujeito que se diz um mestre do conhecimento. Ele se autoproclama arquiteto, engenheiro e construtor, vangloriando-se de ter erguido a cidade inteira: prédios, hospitais, escolas e estádios. Sempre que alguém elogia uma obra, ele estufa o peito para receber os méritos: 'Eu sou o melhor, não há outro como eu'. No entanto, basta surgir uma fenda na estrutura ou o desabamento de um edifício para a resposta mudar no mesmo instante: 'A culpa não é minha'."Surge um vazamento em um dos apartamentos.
— Quem é o responsável?
O sujeito autoproclamado responde:
— O encanador.
O encanador é questionado:
— Mas o problema não estava relacionado ao projeto?
Então a culpa passa para o projetista.
— Mas o projetista aponta para o material utilizado?
O fornecedor responsabiliza o fabricante.
— O fabricante aponta para quem solicitou o material.
E assim a responsabilidade continua sendo transferida. O problema permanece, mas ninguém assume integralmente a culpa. É uma espécie de mecanismo perfeito: sempre existe alguém disponível para ocupar o lugar do culpado. O sujeito autoproclamado está sempre disponível para receber os créditos, mas quando todos os indícios das tragédias ocorrida na cidade aponta para o ele, o sujeito recorre à legião de fãs que acreditam fielmente que ele não possui uma parcela de culpa.
Essa lógica não está necessariamente limitada à política ou à religião. Ela pode aparecer em empresas, famílias, instituições e até em nossas próprias vidas. Enquanto houver alguém para responsabilizar, talvez não precisemos olhar para nossas próprias decisões.
Essa lógica não está necessariamente limitada à política ou à religião. Ela pode aparecer em empresas, famílias, instituições e até em nossas próprias vidas. Enquanto houver alguém para responsabilizar, talvez não precisemos olhar para nossas próprias decisões.
O Conforto de Ter um Inimigo
Por que transferir a culpa é tão confortável? Talvez porque um culpado simplifique aquilo que é complexo. Problemas econômicos possuem diversas causas. Problemas sociais também. Conflitos políticos, religiosos e familiares raramente possuem apenas um responsável. Mas é muito mais fácil dizer: “Foi culpa deles”, mesmo que o "Eles" não tenha criado, solicitado e executado nada. Essa resposta encerra rapidamente uma investigação que poderia exigir muito mais esforço. Além disso, existe outro benefício: a preservação da identidade. Se o problema é sempre causado pelo outro, então não precisamos questionar nosso próprio grupo ou existência. Nós continuamos sendo os certos. Eles continuam sendo os errados. Nós somos as vítimas. Eles são os responsáveis. E assim a narrativa permanece intacta.Conclusão: Quem se Beneficia Quando Continuamos Procurando um Culpado?
O objetivo deste texto não é questionar a fé, a religião ou o posicionamento político de ninguém. A intenção é apenas trazer uma luz sobre um comportamento que pode passar despercebido: muitas vezes entramos em debates, conflitos e guerras ideológicas simplesmente porque não percebemos que a própria divisão pode fazer parte da narrativa que estamos consumindo. Criam-se inimigos reais ou imaginários, alimentam-se rivalidades e colocam-se pessoas semelhantes umas contra as outras. E, enquanto todos discutem quem deve ser culpado, os problemas continuam existindo.A culpa compartilhada pode ser tanto real quanto imaginária, manifestando-se no cotidiano, na política e na religião. No entanto, a culpa é completamente funcional e possui responsabilidades reais e se mal utilizada cria problemas que vão muito além da sua origem. Quando compreendemos essa dinâmica, torna-se mais fácil distinguir entre uma responsabilidade real e uma narrativa construída para transferir culpa. Talvez o verdadeiro pensamento crítico não esteja simplesmente em escolher de qual lado estamos — do bem ou do mal, direita ou esquerda, religioso ou não religioso. Mas em perceber quando ambos lados estão sendo manipulados para gerar narrativas divisórias ideológicas, formando um povo cego e totalitarista.
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