Se Deus quisesse que pastor curasse, o pastor seria médico
Se Deus quisesse que pastor curasse, o pastor seria médico
Neste blog post descubra a verdade sobre dons espirituais defendido por pastores nas igrejas.
Você já participou de cultos em que um pastor convidado parece incapaz de apenas pregar a palavra de Cristo e ir embora? Parece inaceitável, quase uma afronta. A culpa, porém, não é somente dele, é nossa: não nos contentamos em ouvir uma palavra simples, como Jesus pregava, e ir para casa. Precisamos de "algo mais", é como se saíssemos vazios. Com isso, muitos pastores sentem a necessidade de performar, demonstrando algum "dom extraordinário", pois ser apenas pastor não parece suficiente. Precisam curar, expulsar demônios e fazer promessas financeiras — alegando que Deus tem uma promessa dos céus, sendo obrigado a cumpri-la, para isso acontecer, você tem que ofertar algum retorno financeiro em troca da obrigação divina.
| Foto de Pavel Danilyuk: https://www.pexels.com/pt-br/foto/biblia-pastor-escala-de-cinza-tons-de-cinza-7317744/ |
A busca por espetáculos nos cultos
Um grande defeito de muitos cristãos é não se contentar com a simplicidade da palavra. Jesus diz: "tenham fé", e somente isso deveria ser o bastante, entretanto, quando surge o primeiro espetáculo circense nas igrejas, lá estamos nos presentes. É óleo ungido, lenço de suor de pastor, água orada, rosa do deserto de Israel — comprada na quitanda. Ou seja, o simplesmente crer parece não bastar; precisa haver uma firula profética para o cristão não se sentir vazio. Toda essa prática pode ser considerada uma das piores formas de idolatria que alguém pode praticar. Geralmente nos submetemos a esse tipo de coisa, não por falta de discernimento, e sim, para não nos sentirmos diferentes, fora do senso de pertencimento, não sermos questionados, e na maioria dos casos não sermos perseguidos pela igreja.
Diante disso, alguns pastores seja por ignorância religiosa e outros por mau-caráter criam todo tipo de espetáculo para manter a fé dos irmãos ativa, como se somente a graça de Cristo não bastasse. Qual o resultado de todo esse espetáculo religioso? Um evangelho vergonhoso completamente destoado da mensagem de Cristo — é crente da camdobléia, crente golpista, crente coach, crente que levanta muro, crente que derruba muro, até fogos de artifício muitos crentes estão adotando nas igrejas, na tentativa de simbolizar algo que leve os irmãos mais para mais perto de Deus.
O dom do crente "Praguento"
De todo espetáculo que um crente pode fazer para justificar a falta de fé, existe um que me incomoda bastante é o "crente praguento", sério, em teoria, seria impossível para uma pessoa que diz lê a bíblia, que segue os mandamentos de Cristo, e somente por "birra" religiosa proferem praga em tudo e em todos.
Se for de outra religião, tome praga!
Se for alguém que não aceita ser cristão, tome praga!
Se questionar a religião, tome praga!
Se falar da tia cristã fofoqueira, tome praga!
É surreal! O pessoal não consegue ter um pingo de racionalidade — e acrescento mais, quando você se depara com um crente assim, onde a maioria são de idade mais avançada, sabemos que essa pessoa dificilmente vai mudar a mentalidade, pois, já está enraizado. A tristeza se dá quando parte de uma pessoa jovem, totalmente funcional, não utilizando um pingo de conhecimento e bom senso, para compreender que proferir praga em tudo e todos, impossivelmente seria um ato de Jesus.
O Foco Da Nossa Fé
Muitas igrejas convidam pregadores renomados para datas comemorativas. Nesses eventos, as promessas são grandiosas, curas que não se confirmam, prosperidade financeira que no dia seguinte se dissolve, e expulsão de demônios que não impede a pessoa de destratar a própria família no dia seguinte. Se nada der certo, a culpa não é do pastor, mas do crente, que "não teve fé suficiente".
Em 1 Coríntios 12:28-31, a Escritura questiona se todos podem ser apóstolos, profetas ou operar curas.
Certa vez, presenciei um pastor tentando curar uma senhora idosa que usava cadeira de rodas, mas que conseguia ficar em pé por curtos períodos. Ele perguntou se ela acreditava que seria curada naquela noite, fez uma oração fervorosa, usou óleo ungido e forçou ela a dar alguns passos, como não conseguia chamou a equipe dele, que segurou a senhora pelo braço, e colocou a coitada de pé, a tadinha deu uns quatro passos com o rosto claramente transparecendo dor, enquanto isso o pastor milagreiro gritava aos prantos, fazendo o espetáculo que eles sabem bem: "ela esta curada", e a multidão se emocionou! No dia seguinte, a senhora afirmou que não se sentia curada, sendo prontamente criticada pelos irmãos pela "falta de fé". "Não irmã, o pastor é um homem ungido de Deus", você precisa crê mais. Sempre as mesmas desculpas e táticas.
O foco da coitada de senhora acima, provavelmente não estava voltado para cura, talvez estivesse mais focado se ela tinha deixado o fogo do feijão ligado, ou não. Então vem um pastor e pega a tadinha pelo braço, para demonstrar o quê? Com o objetivo de quê? Qual foi a utilidade para o evangelho? Tenho certeza que nenhuma. Do contrário, no dia seguinte ela não questionaria os dons do pastor.
A mulher do fluxo de sangue e a filha de Jairo
A mulher do fluxo de sangue foi curada porque teve fé. Teoricamente, os pastores não estariam errados quando exercem o ato de cura nas igrejas! No entanto, para entender isso é preciso desmitifcar algumas coisas.
A mulher do fluxo de sangue já vinha sofrendo há muitos anos; portanto, passou boa parte da vida se dedicando à cura desse fluxo. Ou seja, sua atenção e foco estavam voltados para isso. Ela não precisou decidir em um momento oportuno se teria ou não teria fé. São momentos completamente destintos, entre uma pessoa que passou uma parte da vida se dedicando a algo, e a outra que, precisou decidir de imediato se possuía ou não fé, somente para engrandecer o ego do homem.
Uma pessoa pode estar crendo infinitamente mais em ganhar na mega-sena do que em ser curado, e a probabilidade de ganhar pode parecer até maior do que ser curado, pois, o foco da sua fé pode estar em outro plano. Isso não faz alguém com mais ou menos fé, é somente o foco do momento que é diferente de pessoa para pessoa. Foi assim com a mulher do fluxo de sangue.
Diante disso, podemos extrair outras conclusões. Se Jesus quisesse se vangloriar por ter algum dom importante, Ele teria ido até à mulher do fluxo de sangue; mas foi ao contrário, foi ela que o buscou — Ele diz: “A tua fé te curou”. Percebam que além d'Ele, não se vangloriar, ainda exaltou a mulher, pela coragem e fé. O que faz eu ou você diferente dela, é somente o foco.
A filha de Jairo a menina ressuscitada: outra passagem que podemos exemplificar claramente que não ouve nenhum tipo de vanglória da parte de Jesus, se trata da filha de Jairo. Ele quem procurou Jesus, no entanto, em nenhum momento você verá Jesus se promovendo pela dor ou sofrimento.
Pensem bem, se o pai da menina procurou Jesus, certamente porque ele acreditava em algo que ninguém poderia acreditar, ou seja, Jairo estava focado. Se ele não tivesse fé que Jesus curaria a menina, certamente ficaria lá chorando junto com os outros.
Dificilmente Jesus entraria na casa só para se promover e mostrar para os discípulos: "olha como sou o cara, tenho vários dons". Única palavra de Jesus para o pai da menina só "creia", é como se dissesse se você me procurou mantenha o foco da sua fé voltado para a cura da sua filha.
Percebam como o evangelho de Jesus e simples. Uma mulher que sofria de uma hemorragia por doze anos, e uma menina que estava perdendo a vida. Em nenhum desses casos vemos espetáculo, manipulação financeira ou humilhação pública. O objetivo da fé deveria ser a solução de problemas complexos de forma simples, e não a promoção pessoal do pregador religioso.
Médium, bruxo ou manipulador? A racionalidade do milagre
O carro novo
Eu já presenciei muito dessas coisas em igrejas. Certa vez havia um irmão que queria comprar um carro, estava na busca por mais de meses. Certo dia o pastor fez o profetismo do carro novo, e disse que quem tinha fé e queria um carro novo fosse até a frente receber a benção, essa pessoa em específico não estava nesse culto, no entanto, na semana seguinte ele conseguiu comprar o carro, e os irmãos imediatamente, "foi a benção do pastor", só que, esse irmão abençoado comprou um carro usado, de leilão e cheio de B.O. Os fatos apenas coincidiram entre si, é impossível atrelar a compra do carro há alguma profecia pastoral.
A casa nova
Em outro culto o pastor liberou a profecia da casa nova, para aqueles que obviamente moravam de aluguel, ou queriam uma outra moradia — nessa os irmãos foram todos receber a benção pastoral. Passado algum tempo um crente foi testemunhar a benção que havia recebido de Deus através da profecia que o pastor liberou. Ele tinha ido na construtora "Tenda" e conseguiu comprar o tão sonhado apartamento, como já havia tentado várias vezes, mas sem obter sucesso, fato do pastor ter liberado as promessas do céu foi motivo de agora sim, ele conseguir comprar com entrada zero a nova moradia. Olha que excelência certo? Só que não, passado um tempo as taxas que ele não pagou no início começaram a chegar, então ele se viu obrigado a vender o apartamento, pois, sua renda era incompatível.
Onde está o erro? Seria na falta de fé da pessoas? Povavelmente não. Ter fé significa também possuir racionalidade e discernimento. Se o momento não é oportuno para se realizar um sonho, seguir a pressão emocional dos pastores cheios de dons místicos, não vai te ajudar a pagar os boletos da profecia.
A Utilidade Real dos Dons
Talvez você se surpreenda com o que vou dizer, mas o espírito de vida e a sabedoria que habitam em um médico, em um psicólogo ou em um engenheiro vêm exatamente da mesma fonte divina que atua em um pastor. Existe um grande equívoco no meio cristão de acreditar que os dons e a atuação de Deus se restringem àqueles que frequentam uma religião ou ocupam o púlpito de um templo.Provavelmente, alguns tentarão refutar essa ideia alegando que esse discernimento é exclusivo de quem possui "maturidade espiritual", e que a capacidade de curar ou profetizar pertence apenas a quem faz parte do Corpo de Cristo — isto é, quem se batizou e compreende as coisas do Espírito. Os contrapontos religiosos são muitos.
No entanto, surge aqui um questionamento inevitável: a Bíblia menciona que o Espírito distribui "dons de curar", mas jamais especifica uma metodologia ou fórmula ritualística para isso. Fica a reflexão: um pastor showman, que promove um espetáculo no altar, impõe as mãos sobre a cabeça de alguém e declara a cura imediata, está de fato exercendo algum dom espiritual? Como sustentar essa "cura" se, no dia seguinte, os enfermos permanecem com as mesmas dores e diagnósticos?
A verdade é que a encenação não substitui o fato. Por isso, continuo convicto de que, se o dom de um pastor fosse exercer a cura como função e rotina, o mais coerente e responsável desse dom seria a Medicina.
Razão, ciência e fé cotidiana
Não sou teólogo nem especialista na área, mas fica quase impossível crer que alguém possua o dom de cura — ou qualquer outro dom — sem que haja o mínimo de especificidade. Afinal, se uma pessoa vai ser curada, como isso acontece? Se existe uma promessa financeira, qual é a metodologia real por trás dela? Lançar palavras ao vento é algo que qualquer enganador consegue fazer. Sinceramente, é fácil demais.É exatamente por isso que vemos tantos oportunistas se prevalecendo do Evangelho hoje. O malabarismo teológico que utilizam para convencer o público de que a Bíblia é um livro de fórmulas místicas é impressionante. E, na pior das hipóteses, quando são confrontados, eles usam a falta de discernimento dos fiéis a seu favor: alegam que estão sendo "perseguidos", que estamos "próximo da volta de Jesus" ou que as pessoas estão com o "coração endurecido" por não acreditarem em suas falsas promessas.
O próprio texto bíblico confronta essa tentativa de centralizar tudo em uma só pessoa:
"São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Têm todos o dom de realizar milagres? Têm todos os dons de curar? Falam todos em línguas? Todos interpretam?" — 1 Coríntios 12:29-30Jesus viveu entre nós como homem para demonstrar que o Reino de Deus se expressa na vida diária de forma prática, humana e acessível. O misticismo, o ocultismo e o espetáculo religioso atendem apenas ao ego de quem não aceita que a verdade pode ser muito mais simples do que imaginamos. Só que o simples não gera status. O simples não move milhões nem atrai holofotes. Então, cria-se o grandioso e o ilógico, sem necessidade de fundamento racional — afinal, se algo der errado, a regra da igreja é clara: questionar nunca é uma opção.
Existem dons mencionados na Bíblia? Isso é um fato. Mas como o texto bíblico muitas vezes abre margem para diferentes interpretações, aqueles que buscam refrigério no Evangelho acabam reféns de homens que o interpretam segundo a própria vaidade. Pessoas que criam regras e expectativas que nem elas mesmas conseguem explicar ou viver.
Se o ser humano, com as limitações normais da vida, já causa estragos imensos quando alcança um pouco de poder, imagine o que seria de um homem que realmente concentrasse o poder de curar qualquer doença, prever o futuro, gerar riqueza instantânea e expulsar demônios sem um impedimento prático? Já parou para pensar nisso? O ego, a soberba e a ganância seriam incontroláveis; a criatura tentaria se colocar no lugar do Criador.
Antes de sairmos por aí acreditando que homens comuns possuem "superpoderes" de impor as mãos, proferir palavras mágicas e resolver instantaneamente a vida de alguém, precisamos resgatar a racionalidade. O cotidiano nos dá provas diárias de que as soluções para os nossos problemas estão muito mais no mundo real, na responsabilidade e na ação do que no sensacionalismo místico dos superpastores.
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