Os Desvios!
Desvio de Conduta ou Desvio de Caráter?
Desvio de conduta e desvio de caráter são a mesma coisa? Confira esta reflexão baseada em relatos reais do cotidiano sobre traição, arrependimento e limites morais.
Recentemente estive pensando sobre um acontecimento referente a desvios de conduta e mau-caratismo: será que eles devem ser devidamente considerados iguais, ou podemos caracterizá-los como duas coisas completamente diferentes?
Por ser um tema muito complexo, é praticamente impossível sermos unânimes em concordar sobre o assunto deste post. No entanto, isso não nos impede de incitar a discussão. Fique comigo até o final do texto e opine se você concorda ou não com o tema abordado!
| Foto: Reprodução |
A Conversa na Barbearia
Estava em uma barbearia e, durante o corte de cabelo, surgiu a seguinte conversa:
A resenha era sobre uma mulher que havia traído o marido. Quase que unanimemente, todos no recinto sentenciaram a coitada ao "mau-caratismo" — isso para adjetivar de forma leve os outros nomes pesados que foram dados a ela na roda da conversa.
No entanto, a conversa tomou ainda mais volume quando descobrimos que o marido havia perdoado a mulher e que os dois ainda viviam juntos. O adjetivo dado ao marido vocês já conseguem adivinhar, certo?
Então eu fiquei pensando: isso foi um desvio de conduta ou um desvio de caráter?
Como opinião pessoal, eu acredito que são coisas completamente distintas. Embora por vezes dê vontade de classificar tudo como uma coisa só, o meu subconsciente simplesmente não me permite.
Antes precisamos entender o "Conceito de Desvio de Conduta e Desvio de Caratér".
Os Casos de Traição: Erro Momentâneo vs. Padrão de Conduta
Talvez os casos mais emblemáticos, sejam os de traição. Com certeza você vai se perguntar: "Esse maluco vai dizer que uma pessoa que trai a outra não é mau-caráter?"
Por mais que eu queira e tenda a caracterizar assim, não posso deixar de ponderar que existem pessoas que, infelizmente, cometem somente um desvio de conduta. Sim, isso mesmo: um desvio.
Entendam que este post não é sobre justificativas e muito menos sobre quais atitudes você deve tomar se alguma situação assim acontecer com você. É somente para exemplificar e trazer uma discussão sobre o assunto. Pense bem: uma pessoa que trai por um motivo qualquer e depois se arrepende profundamente do ato pode ser considerada mau-caráter?
Independentemente do ato cometido, eu penso que uma pessoa só pode ser considerada mau-caráter se ela permanecer no ato consecutivamente. Pense comigo: por que muitas mulheres perdoam os maridos ou vice-versa? Simplesmente porque gostam de serem adjetivados negativamente de "cornos" ou porque no fundo, elas sabem — ao menos inconscientemente — que o traidor pode ter tido apenas um desvio de conduta.
Com isso, não quero criar um manual para vocês saírem por aí dizendo: "Olha, agora temos que perdoar ou deixar tudo de lado porque li no blog que foi só um desvio de conduta".
Sei que parece loucura, mas ao anarlisarmos mais afundo, uma pessoa que comete um ato de desvio de conduta, não tem o mesmo perfil de um mau-caratér. Provavelmente pode existir alguma circunstância que levou ou submeteu a pessoa a tomar uma atitude de desviar o seu comportamento, por isso, é importante quando a poeira baixar, focar em analisar um possível contexto e não somente o ato em si, para que a pessoa tenha uma oportunidade a "redenção".
Um Caso Real de Traição com Mau-Caratismo
Havia um casal de amigos meus que se conheceu e começou a namorar na época em que trabalhávamos juntos. O ambiente era uma empresa de médio porte, com muitos colaboradores. Entre eles, havia uma moça muito bonita e corpulenta, que gostava de pegar homens que já estavam namorando ou eram casados. Esse amigo acabou caindo na cilada dela — e digo a vocês: era bem difícil não cair.
Certa vez, essa mesma moça pegou o meu dedão do meio e colocou todo na boca dela — e olha que o dedo estava sujo de mexer com dinheiro o dia todo! Em outra ocasião, ela chegou no meu ouvido e perguntou se eu era "bixona". Aquilo mexeu com o meu psicológico, mas como na época eu também estava namorando, segurei as pontas e deixei passar.
No entanto, ela não ia parar. Utilizou da mesma artimanha com esse meu amigo, e ele acabou caindo na cilada. Após consumado o ato, o que ela fez no dia seguinte foi espalhar a história para várias pessoas na empresa, até chegar aos ouvidos da namorada dele. Obviamente, ao saber da notícia, a namorada terminou o relacionamento com o cara.
Trabalhamos juntos por mais um curto período até que ele foi para outra empresa. Fiquei um tempo sem ver o cara, mas via a antiga namorada dele com frequência. Certo dia encontrei ele na rua com uma cara completamente desolada. Conversamos e, no meio do papo, ele me perguntou se eu tinha contato com a ex dele. Respondi que sim, mas já adiantei que não me meteria, pois era um problema que ele tinha que resolver. Acreditem em mim: o homem estava realmente desolado, a ponto de estar deprimido.
Perguntei a ele: "Por que você traiu se gosta tanto dela assim?". Ele me explicou que a mulher chegou no ouvido dele e o provocou. Ele disse que não resistiu àquela afronta e acabou cedendo. Por dentro eu pensei: "Poderia ter sido eu nessa situação..."
Passado algum tempo, encontrei a ex dele, do nada, ela me perguntou se eu tinha contato com ele. Afirmei que sim. Ela começou a me indagar mais informações e eu acabei soltando tudo no ventilador: contei que o cara estava desolado, mas deixei bem claro que qualquer atitude era de responsabilidade deles dois, e que a única coisa que eu estava fazendo era responder a verdade pedida por ambos.
Resumindo: eles dois reataram o namoro e já estavam em altos plenejamentos para se casarem. Mas vocês pensam que acabou? Não! A ex-corna fez questão de dar o troco no atual marido: saiu e se envolveu com um cara de quem o marido dela tinha o maior ciúmes. Logicamente o marido não sabe, e muito menos eu seria doido de contar.
Nessa história toda que te contei: quem você acha que teve um desvio de conduta e quem teve desvio de caráter? Ou acredita que ambos podem ser adjetivados com esse comportamento?
O Caso da Empregada da Família
Conheço uma pessoa que trabalhou por mais de 50 anos como empregada doméstica na mesma casa, não só como empregada, mas fazendo várias funções. Certamente, uma pessoa que já está há meio século trabalhando com a família já poderia, em teoria, ser considerada da família.
Certo dia, ela descobriu a senha do cartão do patrão (um senhor já idoso). Como a principal função dela era cozinhar, em determinado momento a doméstica sentiu a necessidade em comprar utensílios que estavam faltando na casa. Pediu o cartão ao idoso e falou que achou a senha dele e que poderia ir comprar pois já sabia digitar a senha. O idoso concordou e ela foi comprar as panelas. Só que, no meio das compras, ela sentiu que também poderia comprar alguma coisa para ela.
Então ela foi até a farmácia para comprar R$ 100 em remédios para ela mesma, pois estava sentindo dor de exercer também a função de cuidadora da esposa desse senhor idoso. Com o passar do tempo, o filho do idoso — que também era responsável pelas finanças do pai — viu que alguém havia ido na farmácia, e indagou a pobre coitada. A empregada, nervosa, disse que foi ela, mas que o idoso havia confirmado que ela podia comprar (coisa de que ele já não se lembrava mais). Como o filho é um verdadeiro pão-duro, foi aquele alvoroço.
Por fim, o filho mudou a senha do pai para evitar que comprassem coisas sem permissão. Mais tarde, a família foi lesada por uma outra cuidadora que dava "chá de calcinha" no velho...
Nesse caso, como poderíamos classificar a situação da empregada: como desvio de conduta, de caráter ou nenhuma dessas opções?
O Ladrão de Chocolates e o Escalamento do Crime
Outro exemplo clássico que podemos ilustrar são as pessoas que cometem furtos versus quem comete roubos. Você que é da década de 80 ou 90 sabe que a galera muito jovem gostava de entrar no supermercado para furtar principalmente chocolates. Conheço várias pessoas que fizeram isso e, hoje na fase adulta, são pessoas que posso classificar como comuns. Poderíamos classificar essas pessoas como mau-caráter?
Seguindo a mesma lógica do furto ao supermercado, havia um colega que já estava passando dos limites. Com muita frequência ele entrava no mercado e o chocolate já não era suficiente: eram chinelos, perfumes, utensílios de higiene. Mesmo nós o alertando de que uma hora daria errado, ele não deu importância — até que um dia foi pego. Como a família dele era militar, as coisas ficaram mais amenas para ele.
Por fim, essa pessoa seguiu a carreira militar e o que antes era um desvio só no supermercado passou para um âmbito muito maior. Então, nesse caso, será que não podemos caracterizar como um desvio de caráter? Neste último caso, a pessoa não teve vontade de mudar e ainda continuo evoluíndo na prática!
Os exemplos são muitos: um amigo que traiu sua confiança e você ficou com a pulga atrás da orelha, um filho que pegou o lápis do colega escola e trouxe para casa... Imagine se formos classificar uma criança que pega um lápis de um amiguinho como mau-caratér?
O Que Não Podemos Caracterizar Apenas Como "Desvio de Conduta"
Acredito que existem coisas que não possamos classificar como simples desvio de conduta, e sim caracterizar logo como mau-caratismo:
Um serial killer não pode ser classificado como desvio de conduta.
Um molestador de pessoas não acredito que possamos classificar como desvio de conduta.
Um sequestrador ou um corrupto nato não cometeram apenas um deslize de desvio de conduta.
Por que acredito que já possamos classificar essas pessoas como desvio de caráter logo de imediato? Pense comigo: na multidão de brasileiros, quantos serial killers você conhece? Poucos, para não dizer quase nenhum, correto?
Então, todos esses exemplos são padrões que não são regra para a maioria das pessoas e na verdade são exceções raríssimas, que fogem aos padrões da sociedade em que vivemos. É claro que existem estudos que classificam esse tipo de pessoa não só como desvio de caráter, mas também com transtornos mentais (ou seja, doentes). Mas será que podemos classificar um político corrupto além de mau-caráter como um doente?
Conclusão
Para você que chegou até aqui, o principal objetivo foi focar que desvio de conduta não precisa necessariamente ser desvio de caráter — se não, não haveria perdão. Podemos e devemos analisar sob uma perspectiva de mundo onde as pessoas erram. Colocar todos numa mesma "sopa de letrinhas" do mau-caratismo é até injusto.
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