O Louco?

Trump é mesmo louco?


Nos noticiários brasileiros, a figura de Donald Trump é frequentemente retratada de forma caricata, muitas vezes associada à ideia de um líder errático ou louco. No entanto, uma análise mais aprofundada de suas políticas e da ideologia que as fundamenta revela uma estratégia coerente, embora controversa, enraizada em um conceito histórico: o 'America First'.

As Raízes do 'America First'


O slogan “America First” não é uma invenção de Donald Trump. Ele dominou o léxico da política dos EUA nos últimos anos, tornando-se uma das frases mais usadas na era Trump. A noção de “America First” foi um elemento central da retórica de política externa do Presidente Donald Trump, que ele sublinhou no seu discurso inaugural em 20 de janeiro de 2017, quando declarou: “a partir de hoje, será somente a América em primeiro lugar. Cada decisão sobre comércio, impostos, imigração, assuntos externos, será tomada para beneficiar os trabalhadores americanos e as famílias americanas.”

No entanto, a ideia de uma política externa 'America First' — ou uma política mais amplamente isolacionista — tem raízes profundas na história dos EUA. Figuras como Thomas Paine, Thomas Jefferson e George Washington já alertavam contra os perigos de alianças estrangeiras e defendiam a não-intervenção em assuntos europeus. [1]


No século XX, a frase 'America First' ganhou destaque nacional em 1915, quando se tornou um lema do Presidente Woodrow Wilson durante sua campanha. Wilson, embora internacionalista, usou o termo para atrair isolacionistas que queriam evitar o envolvimento dos EUA na Primeira Guerra Mundial. Ele defendeu a neutralidade dos EUA com o lema “Ele nos Manteve Fora da Guerra”. [1]



Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, a questão do isolacionismo voltou a ser central. O Comitê America First (AFC), estabelecido em setembro de 1940, opôs-se à entrada americana na guerra e ao Plano Lend-Lease de Franklin Roosevelt. Apesar da forte oposição do AFC, o Lend-Lease foi aprovado. O AFC atraiu membros de todo o espectro político, incluindo Charles Lindbergh, que, no entanto, enfrentou acusações de antissemitismo. Após o ataque japonês a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, o AFC foi rapidamente dissolvido, reconhecendo que a “vitória” era o objetivo principal. [1]


Essa breve retrospectiva histórica demonstra que a ideologia de colocar os interesses americanos acima de tudo não é nova, mas sim um tema recorrente na política externa dos EUA, adaptado e reinterpretado por diferentes líderes em diferentes contextos históricos.

Foto: Reprodução

As Estratégias Econômicas de Trump: Tarifas e Acordos Comerciais


As políticas econômicas de Donald Trump, especialmente suas tarifas e renegociações de acordos comerciais, foram frequentemente mal interpretadas. Longe de serem atos aleatórios, elas se baseiam em quatro objetivos principais, conforme análise da CNN Brasil [2]:

1. Restaurar a capacidade industrial dos Estados Unidos: Trump buscou incentivar empresas a investir e produzir nos EUA, argumentando que as tarifas forçariam a relocalização de fábricas. Embora algumas empresas tenham anunciado investimentos, a realidade é que a criação de empregos na manufatura não teve um aumento significativo, e desafios como a falta de mão de obra qualificada e o custo mais alto da produção nos EUA persistem. [2]

2. Aumentar a receita dos EUA: Trump chegou a estimar que as tarifas poderiam gerar trilhões de dólares em receita anual, o suficiente para substituir o imposto de renda federal. No entanto, economistas apontam que a receita real arrecadada é significativamente menor, e que as tarifas precisariam ser extremamente altas (acima de 100% em todos os bens importados) para sequer se aproximar desse objetivo, o que é inviável e causaria uma queda drástica na demanda. [2]

3. Equalizar a balança comercial: O objetivo era reduzir o déficit comercial americano. Houve uma redução inicial no déficit, mas especialistas alertam que isso pode ser um efeito temporário, e que as tarifas não necessariamente aumentam a demanda por produtos americanos no exterior. [2]

4. Pressionar países estrangeiros a estabelecer políticas que beneficiem os Estados Unidos: Trump utilizou as tarifas como uma ferramenta de negociação, buscando “justiça” contra países que ele considerava estarem em vantagem comercial. Ele introduziu tarifas “recíprocas” para punir países com grande déficit comercial com os EUA, levando alguns à mesa de negociação. [2]

Impactos na Economia Americana:


As tarifas de Trump, embora defendidas como benéficas para a economia americana, geraram preocupações e impactos negativos:

Inflação: As tarifas podem levar ao aumento dos preços para os consumidores, o que já começou a ser sentido na economia americana, com a inflação acelerando em junho devido ao impacto dos aranceles. 

Déficit Orçamentário: A receita gerada pelas tarifas é insuficiente para compensar o enorme déficit orçamentário dos EUA, que foi exacerbado pelos cortes de impostos de Trump.

Risco para Empresas: Empresas americanas que dependem de importações para sua produção ou que exportam para países afetados pelas tarifas enfrentam aumento de custos e perda de competitividade.

Em suma, as medidas econômicas de Trump, embora apresentadas como uma panaceia para os problemas americanos, tiveram resultados mistos e geraram debates intensos sobre sua eficácia e seus impactos a longo prazo. A ideia de que são “loucas” ignora a lógica estratégica por trás delas, mesmo que essa lógica seja questionável em seus resultados práticos.

Imigração: Tolerância Zero e Seus Efeitos


A política de imigração de Donald Trump foi marcada por um endurecimento significativo, frequentemente caracterizado pela “tolerância zero” e pela busca por deportações em massa. As medidas incluíram a construção de um muro na fronteira com o México, a separação de famílias de imigrantes e restrições à entrada de cidadãos de certos países. [5]

Essas políticas, embora justificadas por Trump como necessárias para a segurança nacional e para proteger os empregos americanos, geraram forte oposição de grupos de direitos humanos e até mesmo de setores empresariais, que alertam para os impactos negativos na economia dos EUA devido à redução da força de trabalho e à perda de talentos. [6]

A Mídia Brasileira e a Percepção de Trump


A percepção de Donald Trump nas mídias brasileiras retratando-o como um “louco” é um ponto crucial. Frequentemente, a cobertura o retrata negativamente, focando em suas declarações polêmicas e em suas políticas mais controversas. Essa abordagem, pode dar a impressão de ser mais uma “opinião militante” do que uma análise imparcial. 

Pesquisas de opinião no Brasil mostram que a maioria dos brasileiros tem uma imagem negativa de Trump e de suas políticas, especialmente as comerciais, vistas como prejudiciais à economia brasileira. Contudo, é crucial levar em conta que a complexidade das políticas de Trump e as razões que as sustentam frequentemente são simplificadas ou distorcidas na cobertura da mídia, seja no Brasil ou em outros países. Tal prática conduz as pessoas a uma percepção equivocada de um “louco” que certamente merece a devida atenção em todas as suas ações.

A ideia de que um homem bilionário que alcançou a presidência da maior potência mundial por duas vezes (considerando a possibilidade de um segundo mandato) o slogan de “louco” além de ignorar a inteligência alheia, põe em cheque a credibilidade do simplesmente informar os fatos como realmente são. As ações do Trump, sejam elas tarifas comerciais, restrições à imigração ou a renegociação de acordos internacionais, são vistas por seus apoiadores como movimentos calculados para cumprir a promessa de colocar “America First”, mesmo que isso signifique desafiar o status quo global e gerar atritos com aliados tradicionais.

Conclusão


Em vez de ser um “louco”, Donald Trump pode ser melhor compreendido como um estrategista que, munido de uma ideologia profundamente enraizada na história americana, buscou implementar políticas que, a seu ver, beneficiariam os Estados Unidos acima de tudo. As controvérsias e os impactos dessas políticas são inegáveis, mas a simplificação de sua figura para um mero “louco” impede uma análise mais profunda das forças políticas e econômicas em jogo.


Referências:[1] https://medium.com/illumination/the-origins-of-america-first-cd602afb8176

[2] https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/o-que-trump-busca-com-acordos-comerciais/

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