Quando a Igreja Quer Falar de Tudo: O Perigo da Superficialidade!
Quando a Igreja Quer Falar de Tudo: O Perigo da Superficialidade!
Por que fé e ciência precisam caminhar juntas na abordagem de temas como depressão, vícios e saúde mental.
Nos últimos anos, as igrejas brasileiras têm ampliado o leque de temas abordados em seus púlpitos. Depressão, obesidade, suicídio, vícios e violência doméstica passaram a ocupar espaço nas pregações. À primeira vista, isso parece um avanço — afinal, há uma tentativa de dialogar com as dores reais das pessoas.
Mas há um risco crescente por trás dessa boa intenção: o da superficialidade.
Muitas igrejas estão abordando estes temas de forma muito superficial, acreditando que religião resolve tudo. Não há nada de errado em acreditar. O problema se intensifica quando líderes religiosos ao abordar estes temas, seja no culto de domingo, ou em reuniões em lares espelhados por todo Brasil, fazem isso por meio de pessoas que não estão qualificadas para tal assunto. Muitos infelizmente abordam o tema como se fosse somente um problema da alma, ou ao fato das pessoas não irem a igreja, de não orar o suficiente e muitas vezes, acusam até as pessoas em dificuldade culpando-as pelos problemas. Não se trata de desmerecer o papel espiritual da igreja, mas de reconhecer seus limites. Questões como saúde mental, dependência química e distúrbios alimentares exigem conhecimento técnico, estudo e acompanhamento profissional. Reduzi-las à falta de fé é um equívoco que, em vez de ajudar, pode agravar o sofrimento.
Se a depressão fosse apenas um “problema da alma”, bastaria frequentar os cultos para encontrar cura. Se o alcoolismo ou a obesidade fossem apenas sinais de afastamento de Deus, bastaria aceitar Jesus para transformar a vida. Mas a realidade é bem diferente. Pastores e líderes religiosos também sofrem de depressão, ansiedade e outros males — e isso não os torna menos crentes, apenas humanos. O problema não está em falar sobre esses assuntos, mas falar sem conhecimento e de forma superficial.
O discurso religioso, quando mal fundamentado, pode transformar o púlpito em um espaço de simplificações perigosas. E isso causa danos reais a igreja. Ao oferecer soluções genéricas — “basta orar”, “tenha mais fé”, “confie em Deus” —, a igreja corre o risco de transformar a dor do fiel em culpa espiritual. E a culpa, nesse contexto, é um fardo pesado demais para quem já está fragilizado.
Outro ponto que merece reflexão é o relacionamento entre fé e ciência. Ao contrário do que muitos acreditam, elas não são inimigas, mas aliadas. A fé dá sentido à existência; a ciência explica e oferece caminhos para compreender o sofrimento humano.
Negar essa parceria é negar o próprio potencial transformador da fé, que pode inspirar as pessoas a buscarem ajuda, tratamento e conhecimento.
Vale lembrar que muitos princípios ensinados nas igrejas têm raízes em descobertas científicas. Por isso, se for incentivado a falar sobre esses temas, busque estudar, compreender e, acima de tudo, respeitar a complexidade de cada ser humano. A fé é parte da solução — mas jamais o remédio único.
O exemplo bíblico do conhecimento
A própria Bíblia valoriza o estudo e o entendimento. O apóstolo Paulo, por exemplo, foi um homem exímio em buscar conhecimento, ele dominava a teologia, a filosofia e o direito romano. Paulo não falava apenas por inspiração espiritual — ele estudava, argumentava e se preparava para ensinar. Em seus discursos, citava poetas gregos, dialogava com filósofos e usava a razão como ponte para transmitir a fé.
Jesus também foi exemplo de sabedoria prática. Antes de responder, Ele ouvia. Antes de ensinar, observava. Sua forma de lidar com as pessoas era empática, paciente e sempre ajustada à realidade de cada um. Nenhum dos dois — nem Jesus, nem Paulo — tratou a ignorância como virtude. Ambos mostraram que fé e conhecimento caminham juntos, e que o verdadeiro líder espiritual não teme o saber, mas o busca para servir melhor.
Se a igreja deseja abordar temas tão sensíveis, o caminho mais sensato é abrir espaço para o diálogo com profissionais qualificados. Psicólogos, médicos e especialistas podem — e devem — contribuir com a formação e conhecimento técnico desses temas. Não há contradição em unir oração e terapia, Bíblia e psicologia. Há, sim, maturidade e amor ao próximo.
O verdadeiro papel da igreja continua sendo o de acolher, amparar, inspirar além de pregar a "salvação". Esses detalhes não se faz impondo culpa ou superficializando problemas alheios, mas oferecendo a verdade, "Sim! Tenho condição em ajudar ou não possuo qualidade tecnicas suficiente". Jesus, em seu ministério, nunca reduziu a dor de ninguém à falta de fé; Ele as compreendia. Talvez o caminho mais cristão seja justamente esse: escutar mais, julgar menos e reconhecer que, muitas vezes, ajudar também é saber silenciar e aprender.

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